28 janeiro 2013

O Forasteiro

O Forasteiro
Por Yves Vicent

Caminha com passos lentos
E tudo o que mais deseja é não chegar.
Distrai-se com os próprios pés,
Com o barulho dos sapatos, as pedras nas calçadas...

Uma mão no bolso, na outra um cigarro entre os dedos...
Soltar a fumaça levemente no ar,
É incrível como isso acalma...
Nem sempre aquilo que nos mata é algo de todo mau.

Passeia por entre ruas escuras e esburacadas.
Deseja, sonha e aspira uma nova vida
Que não virá no dia seguinte
E no fundo ele sabe que o fim está próximo...

Seu nome e sua historia é de ninguém,
Há muito que não é reconhecido,
Há muito que não escuta ninguém chamar seu nome,
Para os outros ele é apenas o forasteiro!

No primeiro dia que chegara à cidade,
Entrara numa briga que acabou em duelo.
Mais uma morte nas costas
Tantas que ele não consegue contar...

Depois disso poucos se atreveram a lhe dirigir a palavra.
Quando passava ficavam de cabeça baixa,
Quando entrava as conversas morriam,
Tornara-se o vilão daquela cidade sem lei...

Entrou no bar e pediu uma cerveja,
Jogou no ar uma moeda de prata,
Sempre pagava a mais,
Despertando a curiosidade sobre quantas ainda teria...

Aquela cerveja era a pior que ele já bebera
Mas não havia motivos pra reclamar...
Aquela rude gente não tinha muito a oferecer mesmo,
Melhor era deixá-los em paz!

De repente uma batida nas suas costas,
Ao se virar viu um rapaz de olhos vermelhos,
Inchados de tanto chorar...
“Vim honrar a memória do meu pai”...

Era o filho do falecido... O homem que ele matara
Devido a uma briga que tinha entrado sem querer...
“Seu pai foi um tolo, tive que matá-lo mesmo sem vontade...
Vá embora e fingirei não ter escutado suas palavras de agora”!

“Tenho por dever honrar memória do meu pai...
E mesmo que não fosse meu dever, juro pela minha alma,
Que te caçaria até mesmo na profundeza dos sete mares
Ou no quinto dos infernos, seu maldito!”

“Que assim seja... Escolha as suas armas
E dentro de uma hora me encontre na rua principal desta cidade...
Entenderei se não aparecer, mas quero que saiba
Que não irei aliviar em consideração a sua idade”!


E realmente dava pena... Naqueles tempos de seca
Aquele rapaz franzino de 15 anos,
Parecia ter uns 10 anos ou menos...
Nada mais que um garoto, que provavelmente nunca se tornaria homem!

Uma hora depois lá estava o forasteiro,
Com o pé na parede, fumando seu cigarro...
Na rua principal da cidade não tinha um pé de gente,
Mas nas janelas das casas não havia um espaço
Que não houvesse pares de olhos assustados a acompanhar a cena...


Eis que surge o rapaz caminhando lentamente...
Com seu passo vacilante era notório que ele tremia por inteiro,
E no fundo o forasteiro não deixou de sentir certo orgulho por ele...
Eram poucos os homens que sabiam encarar a morte face a face!

“Última chance garoto... Já demonstrou ter coragem ter vindo ate aqui!
Dê meia volta, e prometo não correr no seu encalço!
Mas se continuares com essa tolice de me enfrentar
Vou me encarregar de que você faça companhia a seu pai o quanto antes”!

“Meu pai me ensinou que não era errado sentir medo,
Mas que não era decente fugir diante dele...
Estou aqui para corrigir um erro,
O maldito dia que você nasceu, forasteiro”!

O forasteiro sorriu... Finalmente encontrara um adversário a sua altura.
Um homem que não nega seu medo, e que estava fazendo
Exatamente a mesma coisa que ele se estivesse do outro lado da moeda...

Mas não estava, e tudo que queria agora era acabar logo com isso!
“Esteja pronto”, gritou.
Ouviram-se tiros. Momentos de silencio...
E após uns segundos,
O barulho do corpo no chão.




Morto o forasteiro.
Ninguém acreditou.
O forasteiro com um tiro no peito.
E o rapaz com a orelha decepada.


Ao se aproximar do forasteiro o rapaz
Viu em seu rosto um sorriso.
Os olhos vazios de quem já partiu,
E um detalhe muito interessante...


O forasteiro tinha uma de suas orelhas decepadas!
Do mesmo lado que agora decepara a do menino!
Após matar tantos, e nunca ter errado nenhum tiro,
O forasteiro não errara, tinha deixado um legado!



06/09/2011 as 14:00

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