02 outubro 2025

Paralisia

Um suor enregelado descia-lhe pela testa. Não era a primeira vez que experimentava aquela sensação sufocante de medo, mas  aquilo sempre provocava o mesmo pânico da primeira vez. Era como estar morto, mas de alguma forma consciente, pois ainda conseguia mover os olhos e as pálpebras.

Mas não era isso que lhe angustiava. Nesses momentos de paralisia no escuro do seu quarto, ele via coisas que, embora sua razão lhe dissesse que não eram reais, o medo, que lhe percorria, fazia com que ele acreditasse que eram. E naquele momento ele poderia jurar que alguma coisa se movera no canto do quarto. Uma luz muito tênue que vinha da janela só o permitia identificar sombras e não objetos, mas ele sabia onde estava cada uma de suas coisas: “O guarda-roupa, a cômoda, a cadeira, a escrivaninha com seus papéis espalhados…” - Ele ia recitando tudo que se lembrava nessa hora crucial na tentativa de justificar o que estava vendo agora. Mas aquela forma alongada não combinava com nenhuma daquelas coisas. Havia certamente algo ali naquele quarto à espreita.

 Sentiu então um frio percorrendo-lhe o corpo que nada tinha a ver com a temperatura do quarto, e que se intensificava desconfortavelmente no estômago. Precisava urgentemente retomar o controle dos movimentos, mas o corpo permanecia inerte. E enquanto isso a forma alongada parecia lhe observar atentamente. Era ilusão ou ela parecia ter se aproximado? Seria questão de segundos até que lhe alcançasse.

Então nesse momento, o desespero surtiu efeito e o corpo começou a lentamente recobrar os movimentos. Se arrastando pela cama, ele se virou na direção oposta o mais rápido que pôde, pegou o celular na mesinha da cabeceira e acendeu sua lanterna… E finalmente pôde suspirar com certo alívio. Era apenas o cabideiro com o seu casaco pendurado. Mas, em meio ao alívio, algo lá no fundo lhe dizia que, até aquele momento, ele realmente não estava sozinho naquele quarto.



Yves Vicente Serrano,
Recife, 02 de Outubro de 2025.


P.S.: Esse miniconto foi escrito a partir de uma atividade em que o professor de Criação Literária, do curso de Letras da UFPE, pediu para que fizéssemos um texto descritivo a partir de um quarto escuro.

Nenhum comentário: